A Black Friday de 2026 cai em 27 de novembro e a loja chega à data com o dinheiro mais caro do que na edição anterior. Em 4 de novembro, o Copom decidiu manter a Selic em 13,75% ao ano e interrompeu uma sequência de cinco cortes consecutivos, iniciada em março. No mesmo dia, a IEMI – Inteligência de Mercado projetou R$ 296,8 bilhões de faturamento do varejo restrito em novembro, 2,5% abaixo dos R$ 304,4 bilhões de novembro de 2025.
As duas informações, lidas juntas, mudam a conta de quem compra a mais esperando vender a mais: o estoque separado para a promoção passou a carregar um custo financeiro maior, justamente no mês em que a projeção de faturamento é de queda.
O que a projeção de R$ 296,8 bilhões diz sobre novembro
A projeção da IEMI considera o varejo restrito — o indicador que reúne supermercados, vestuário, calçados, móveis, eletrodomésticos e outros segmentos — e foi montada sobre dados do IBGE. Para o acumulado de 2026, a expectativa é de R$ 3,43 trilhões, alta de 0,9%: ou seja, o ano cresce pouco e o mês da Black Friday recua.
A leitura de volume reforça o recado. Na mesma base, a IEMI estima queda de 5,8% no volume vendido na Black Friday, contra os 2,5% de recuo no faturamento. Isso significa que parte da queda de valor é compensada por preço, não por mais produto saindo da loja — e loja que projeta o estoque pela expectativa de anos anteriores compra acima do que vai girar.

Projeção do faturamento do varejo restrito em novembro. Fonte: IEMI, publicada em 04/11/2026 (base IBGE).
Selic a 13,75%: quanto custa a mercadoria parada
Juro alto não encarece apenas o empréstimo: encarece também o que está na prateleira. Uma taxa de 13,75% ao ano equivale a pouco mais de 1% ao mês — 1,08% no primeiro mês, em juros compostos. Parece pouco até ser aplicado ao valor parado.
Em R$ 100 mil de estoque comprado para a data, o custo financeiro acumulado chega a R$ 3.273 em três meses e a R$ 6.654 em seis meses — e isso sem contar aluguel de espaço, energia de câmara fria, quebra e remarcação. O número não é teórico: é a comparação que decide se vale dar 5% de desconto para girar hoje ou segurar o produto até janeiro.

Custo financeiro de R$ 100 mil em estoque parado, com juros compostos sobre a Selic de 13,75% a.a. Fonte: cálculo sobre a taxa definida pelo Copom em 04/11/2026 (BCB).
No perecível, a conta tem mais uma linha
Em hortifrúti, açougue e padaria, o custo financeiro se soma à perda por validade. Um item que sobra na gôndola depois do pico não volta ao valor original: ou sai com desconto, ou vai para descarte. É por isso que, nesses setores, o giro manda mais que o desconto na decisão de compra.
No supermercado, o desconto que vende é menor do que parece
O comportamento do cliente na data ajuda a calibrar a expectativa. Na Black Friday de 2025, as vendas no varejo alimentar ficaram cerca de 80% acima de uma sexta-feira comum de novembro, com tíquete 43% maior e 26% mais transações — o cliente levou mais itens por visita, não apenas trocou de data.
O dado mais útil para a precificação é outro: o café mais que dobrou as vendas na data, com desconto médio de apenas 4%. Na mesma linha, o sabão em pó apareceu em 16 de cada 100 compras na Black Friday, contra dez em cada 100 nas demais sextas de novembro.
O risco real não é o desconto, é a ruptura
Se o desconto médio que move o carrinho é pequeno, o que derruba a venda é o produto anunciado não estar na gôndola. Item de campanha em falta queima a promoção inteira: o cliente veio por ele e sai sem ele — e a loja pagou o custo do anúncio sem faturar a venda.
Três decisões antes de 27 de novembro
1. Piso de margem por item, não por categoria. Com a Selic em 13,75%, desconto abaixo do piso custa duas vezes: tira margem hoje e, se o produto não girar, ainda cobra o custo financeiro do que sobrou. O piso tem de ser definido antes da campanha, item a item.
2. Proteger o estoque dos itens-âncora. A curva ABC mostra quais itens respondem pela maior parte da margem. São esses que precisam de disponibilidade garantida — não o sortimento inteiro. Comprar largo em tudo para “garantir a data” é o caminho mais rápido para janeiro com estoque caro.
3. Olhar o caixa do mesmo mês. A primeira parcela do 13º salário tem de ser paga até 30 de novembro, e a segunda até 18 de dezembro — o dia 20 cai em um domingo. São dois desembolsos de folha caindo no mesmo período da campanha, junto com o pagamento de fornecedores da reposição.
O que conferir quando a data passar
Terminada a campanha, três leituras fecham o ciclo: giro por item (o que realmente saiu), ruptura durante o período (o que foi anunciado e faltou) e sobra por validade (o que virou remarcação). Sem essas três, a próxima Black Friday começa com a mesma estimativa de compra deste ano — e o erro se repete com juro igual ou maior.
Ressalva: a projeção da IEMI é do varejo restrito como um todo e não um retrato da sua loja; os números de Black Friday no varejo alimentar são de 2025. Servem como referência de mercado — a decisão de compra continua sendo feita com o histórico da sua operação.
Onde o ERP entra nessa conta
O controle de estoque do ERP Catronis reúne, na mesma base, curva ABC, giro por item, ponto de pedido e controle de validade — é o que permite definir piso de margem e estoque protegido com o histórico real da loja, e não com a memória da campanha anterior. Para quem opera mais de uma loja, o ERP para supermercado consolida a visão de todas as unidades e o sistema para mercado de bairro leva a mesma rotina para a loja de um caixa só. E, quando o assunto é o desembolso do mês, a conciliação bancária fecha a ponta entre o que foi vendido no cartão, o que caiu na conta e o que saiu para pagar fornecedor e folha — tema do post sobre crédito no Pix e recebimento à vista.
