CONTROLE DE VALIDADE

Controle de validade: o que a fiscalização achou em outubro

29 de outubro de 2026 por Catronis 7 min de leitura
← Voltar ao blog

Entre 15 e 27 de outubro, cinco operações de fiscalização em três estados retiraram de circulação alimentos com prazo de validade vencido — e não foram casos de um único produto esquecido na prateleira. Foram carnes vencidas desde abril, leite com vencimento em junho, cerveja com a data raspada e até cera automotiva com validade de novembro de 2023. O conjunto diz menos sobre a fiscalização e mais sobre a rotina de quem deveria ter encontrado isso antes: a própria loja.

Para quem opera supermercado, o assunto não é jurídico, é operacional. Validade é uma informação que existe no sistema desde o recebimento, mas que só vira controle quando chega à gôndola, ao lote e ao caixa. É nesse caminho que ela se perde.

O que as fiscalizações de outubro encontraram

No Rio de Janeiro, ações da Secretaria de Estado de Defesa do Consumidor (Sedcon) e do Procon-RJ resultaram no descarte de 1.012,95 kg de alimentos irregulares em Itaocara, Cambuci e Três Rios, além de 339,5 litros de álcool líquido 70% (G1, 22/10/2026). Só em Itaocara e Cambuci foram 795,35 kg, incluindo produtos vencidos e itens sem identificação de manipulação e validade. Em um dos estabelecimentos, a área de preparo e corte de carnes foi interditada.

Em Vila Isabel, na Zona Norte do Rio, a mesma força-tarefa recolheu 135,1 kg de alimentos impróprios: carnes e farinha com validade vencida, algumas desde abril, expostas para venda e nos setores refrigerado e congelado. Fiscais também encontraram carne já moída na máquina do estabelecimento — prática que contraria a norma sanitária — e câmaras com portas danificadas e pontos de ferrugem. O responsável foi conduzido à delegacia para prestar esclarecimentos.

Em Goiânia, o Procon-GO autuou um atacarejo com 680 unidades impróprias: 179 garrafas de cerveja vencidas em janeiro, 69 litros de leite vencidos em junho, quase 40 garrafas de refrigerante de 600 ml vencidas no fim de setembro e itens de limpeza e higiene com prazos muito anteriores — cera automotiva de novembro de 2023 e desinfetante de setembro de 2023. Todos os produtos foram inutilizados no local (Procon Goiás, 26/10/2026).

Em João Pessoa, a fiscalização municipal autuou um supermercado por cerveja vencida e por outra marca com a data de validade raspada, além de 13,64 kg de linguiça calabresa e bacon sem identificação de origem.

Gráfico de barras com o volume de alimentos impróprios retirados de circulação no Rio de Janeiro em outubro de 2026, por cidade fiscalizada

Volume de alimentos impróprios retirados de circulação no Rio de Janeiro, por operação. O volume de Três Rios (217,6 kg) é a diferença entre o total do estado (1.012,95 kg) e o divulgado para Itaocara e Cambuci (795,35 kg). Fonte: Sedcon-RJ e Procon-RJ, outubro de 2026.

Por que o vencido chega à gôndola

Nenhuma das situações acima nasce no dia da fiscalização. Elas nascem de pequenas quebras de processo que se acumulam por semanas:

  • Recebimento sem conferência de lote e validade. O produto entra no estoque com a quantidade certa e a validade errada — ou sem validade nenhuma. O sistema passa a calcular alerta sobre um dado que não corresponde ao que está na caixa.
  • Giro fora de ordem. Sem a regra de primeiro que vence, primeiro que sai (PVPS), a reposição empurra o lote novo para a frente e o antigo para o fundo da câmara. Quando ele reaparece, já venceu.
  • Exposição e produção em excesso. Quanto mais profunda a exposição e maior a fornada, maior a chance de sobra sem destino comercial.
  • Promoção sem sinalização. Item próximo do vencimento com desconto é venda legítima; sem aviso claro ao consumidor, vira irregularidade.
  • Não perecíveis fora do radar. Bebidas, limpeza e higiene vencem igual — e são justamente as categorias em que ninguém faz varredura semanal.

O caso de Goiânia mostra o ponto: um desinfetante vencido há três anos não é erro de um dia de operação, é ausência de rotina. Itens assim só aparecem quando alguém varre a gôndola lote por lote.

O vencimento é só parte da conta

A perda por validade é o sintoma mais visível de um problema maior. Dados da ABRAPPE apresentados em evento da GS1 Brasil em outubro mostram que os produtos vencidos respondem por 40% das quebras operacionais no varejo. Na mesma base, o índice médio de ruptura em supermercados chega a 17% — a cada 100 produtos procurados, 17 não são encontrados — e a acurácia média do estoque fica entre 75% e 80%, ou seja, até um quarto dos registros pode estar errado.

Gráfico de rosca mostrando que 40% da quebra operacional no varejo vem do prazo de validade

Peso do prazo de validade dentro da quebra operacional do varejo. Fonte: ABRAPPE, dados apresentados no GS1 Talks (GS1 Brasil, 16/10/2026).

Os três números contam a mesma história por ângulos diferentes. Se a acurácia do estoque é 75% a 80%, o alerta de vencimento também está errado em parte das vezes — e é por isso que produto vencido aparece na gôndola enquanto o sistema jura que o lote saiu. Ruptura e vencimento são as duas pontas do mesmo dado ruim: o que falta e o que sobra vêm do mesmo erro de registro.

O que o sistema precisa enxergar

Um ERP de supermercado maduro trata validade como dado de entrada, não como relatório de saída. É a mesma lógica do sistema para supermercado que integra recebimento, estoque, frente de caixa e fiscal — e que também sustenta a operação de uma loja com menos gente no corredor.

Validade no recebimento, não só no cadastro

Cadastro do produto guarda a vida útil em dias; a nota de entrada traz o lote e a validade real. Sem gravar esses dois campos na entrada, nenhum relatório posterior acerta. É a base de tudo: sem lote e validade por entrada, o controle de validade vira estimativa.

Alerta que chega antes do descarte

Relatório de vencidos é autópsia. O que evita perda é a lista de itens que vencem em 30, 15 e 7 dias, por setor, com quantidade e valor — e uma pessoa responsável por tratá-la. Sem essa cadência, a loja só descobre o problema quando o fiscal descobre junto.

PVPS aplicado no sistema, não na memória do repositor

Ordem de saída por validade precisa estar no processo de reposição e na etiqueta. Quando o sistema indica o lote a ser vendido primeiro e o caixa bloqueia lote vencido, a regra deixa de depender de quem está no corredor.

Motivo de quebra padronizado

Baixa de estoque com motivo — vencimento, avaria, furto, erro de inventário — é o que permite comparar setores e meses. Sem motivo, toda perda vira "ajuste" e nenhuma ação é possível. É o mesmo princípio que sustenta o controle de estoque confiável: o número só serve quando se sabe de onde veio.

O que a tecnologia não resolve

Nenhum relatório substitui a varredura física. As fiscalizações de outubro encontraram problemas que não aparecem em tela: câmara com ferrugem, carne moída antes do pedido, alimento armazenado no chão. Validade é metade sistema, metade disciplina de loja — e a responsabilidade legal é sempre do estabelecimento, não do software.

Também vale a ressalva inversa: um caso de produto vencido na gôndola não significa que a operação inteira esteja errada. Significa que aquele item, naquele lote, escapou da rotina. O trabalho é reduzir a frequência com que isso acontece, não prometer que nunca acontecerá.

Três perguntas para fazer esta semana

  1. O sistema da loja sabe a validade de cada lote recebido — ou só a vida útil do cadastro do produto?
  2. Existe uma lista de itens que vencem nos próximos 30 dias, com responsável definido e checagem semanal?
  3. Toda baixa de perda tem motivo registrado, ou o estoque é ajustado sem explicação?

Se a resposta for "não" em alguma delas, o problema não é a fiscalização — é o intervalo entre o que a loja acredita saber e o que está na gôndola. Quem fecha esse intervalo com rotina e dado confiável transforma validade de risco em margem. Do lado fiscal, o mesmo cuidado aparece na conferência de notas: vale ver como funciona a auditoria fiscal de NF-e, e vale lembrar que a operação de caixa segue funcionando mesmo quando a internet cai, como no caso do PDV off-line.

Gostou do conteúdo? Compartilhe:

Leia também

reforma tributária CBS

CBS em 2027: 11,3% é aumento de imposto? Veja a conta

TCU fixou a alíquota de referência da CBS em 11,3% para 2027, acima dos 9,21% esperados pelo mercado. Entenda a conta, o teto de 26,5% e o que muda na loja.

29 de outubro de 2026 · por Catronis
mercado pet varejo alimentar

Mercado pet no supermercado: gato já é 31% da cesta

Alimentos para gatos já somam 31% da cesta pet do varejo alimentar. Veja onde a venda cresce em volume e onde só o preço sustenta o faturamento.

27 de outubro de 2026 · por Catronis

Conheça o CATRONIS Erp

O sistema completo para o seu varejo: PDV off-line, estoque, fiscal e financeiro — com suporte de verdade.

Quero uma demonstração