Na quarta-feira, 21 de outubro, o Grupo Muffato abriu em Curitiba uma loja de 700 m² onde ninguém passa produto por leitor: 587 câmeras 4K no teto e 817 prateleiras sensorizadas identificam o que saiu da gôndola e montam a cesta. A loja autônoma virou vitrine de tecnologia — e é justamente por isso que vale olhar o que ficou fora do vídeo de inauguração.
Na mesma semana, o Assaí anunciou que levou o fiscal remoto às 313 lojas. São dois caminhos opostos para o mesmo problema: tirar atrito do caixa. Um troca o caixa por sensores; o outro mantém o caixa e move o fiscal para longe. Para quem opera supermercado de bairro, nenhum dos dois é copiável ao pé da letra — mas os dois apontam para o mesmo lugar.
Loja autônoma: o que a segunda geração faz de diferente
A primeira versão da loja autônoma da rede, testada em 2022 num espaço de cerca de 300 m², exigia baixar aplicativo, fazer cadastro e informar o cartão antes de entrar. A nova unidade, de 700 m² e mais de 3.200 itens, dispensa cadastro prévio: o cliente entra, pega o que quer e decide como pagar na saída — pelo aplicativo com cartão já cadastrado, por um totem com Pix, cartão de crédito, débito ou vale-alimentação, ou ainda pelo self-checkout.
Segundo a Mercado&Consumo, a unidade também passou a ter padaria, açougue e hortifrúti — setores que não existiam, ou existiam com sortimento limitado, na primeira operação. Foi essa ampliação, e não o número de câmeras, que mudou o grau de dificuldade do projeto.
Peso variável é o teste que quase ninguém passa
Produto com código de barras é fácil: cada embalagem carrega a própria identidade. O problema começa quando não existe código — fruta, verdura, item de padaria, corte de açougue. Esses produtos não têm etiqueta individual nem preço fixo, e a conta muda a cada cliente que passa.
Segundo a Exame, a solução da nova loja cruza o peso medido nos sensores da gôndola com as imagens das câmeras, de modo que o cliente não precise pesar a mercadoria numa balança nem colar etiqueta. É o tipo de detalhe que decide se a loja autônoma funciona ou vira fila na saída.

Infraestrutura da unidade de 700 m² aberta em Curitiba em 21/10/2026. Fonte: Exame, 20/10/2026, com dados divulgados pelo Grupo Muffato.
A outra rota: resolver o caixa à distância
O Assaí foi pelo caminho inverso. Em vez de eliminar o caixa, levou para as 313 lojas um fiscal remoto: quando o operador precisa cancelar um item, corrigir um preço ou trocar de operador, ele aciona uma equipe central, que resolve a ocorrência de longe, sem esperar alguém caminhar até o checkout.
Os números de julho, publicados pelo E-Commerce Brasil, mostram a dimensão: 175 mil atendimentos no mês, 59% dos chamados resolvidos em 20 segundos, em média, e queda de 43% nos acionamentos na comparação com junho. O projeto começou em 2025 com prova de conceito e piloto em 13 lojas, passou a 18 e foi expandido ao restante da rede entre março e agosto de 2026.

Fiscal remoto: resultado divulgado da operação de julho de 2026 em rede de 313 lojas. Fonte: E-Commerce Brasil, 23/10/2026.
O ponto interessante é o que essa rota dispensa: não houve troca de parque de caixas, nem obra, nem sensor em gôndola. Bastou transformar uma fila de acontecimentos em processo com dono, prazo e registro — e é aí que a maioria das lojas pequenas perde dinheiro todos os dias, com o operador esperando o fiscal que está atendendo outro corredor.
O que 587 câmeras não resolvem
Cadastro: o item que não existe no sistema não existe na loja
Nenhuma câmera cria produto. Ela reconhece o que já foi cadastrado — e é o cadastro que define descrição, unidade, código de barras, NCM, classificação tributária e preço. Produto que nasce no caixa, sem passar pela retaguarda, vira divergência de preço no dia seguinte e rejeição no mês seguinte. Automação em cima de cadastro desalinhado só faz o erro circular mais rápido.
Estoque: o sensor vê a prateleira, não o saldo
A visão computacional avisa a equipe quando o produto está acabando, o que é útil. Mas o saldo do sistema só muda com movimento: entrada, venda, perda, transferência. Sem acurácia de estoque, o pedido de compra continua errado — e a loja autônoma apenas descobre a falta mais cedo, sem conseguir comprar melhor por causa disso.
Fiscal: cada cesta virou uma nota
Uma compra sem leitor de código de barras continua sendo uma operação tributária, item por item, com CST, classificação e destaque de IBS e CBS. As integrações com faturamento e emissão de notas fiscais foram feitas sob medida pela equipe da própria rede, junto com parceiros, como relata a Mercado&Consumo. A câmera identifica o produto; quem calcula o imposto é o motor tributário do ERP.
O que a loja de bairro pode copiar disso hoje
- Cadastro de peso variável em ordem. Produto de balança tem regra própria: código derivado do PLU, preço por quilo, tara. Quando isso está certo no cadastro, a balança, o caixa e a nota falam a mesma língua — o mesmo problema que a loja autônoma resolveu com sensores e imagem. Veja o que entra nesse controle de estoque.
- Menos intervenção no caixa, com regra clara. Limite de cancelamento por operador, autorização registrada, motivo classificado. Não é fiscal remoto, mas ataca a mesma causa: o cliente parado esperando decisão de outra pessoa. O comportamento do PDV quando a internet cai mostra por que esse registro precisa existir também fora do ar.
- Estoque que fecha com o caixa. Venda registrada, baixa de estoque e título a receber têm de contar a mesma história no fim do dia. É o que sustenta qualquer automação depois, e o que a conciliação bancária fecha no lado do dinheiro.
- Conferência fiscal antes da SEFAZ. Item sem NCM, sem CST ou com classificação incompatível derruba a emissão no pior momento. Um auditor fiscal de NF-e pega isso antes do cliente. E as regras de IBS e CBS na nota já exigem que o dado do produto esteja correto na origem.
Ressalva honesta sobre os números
Os dois casos são de redes grandes: uma loja de 700 m² com mais de 3.200 itens é operação de vizinhança, não um supermercado completo, e a rede que a inaugurou faturou R$ 20,3 bilhões em 2025, segundo o Ranking ABRAS 2026. Nada disso se transporta para uma loja independente na forma de hardware.
O que se transporta é a ordem das coisas. Antes de automatizar a frente de caixa, é preciso que o produto esteja cadastrado, que o estoque diga a verdade e que a nota saia certa. Quem faz essa parte primeiro consegue adotar qualquer tecnologia depois — inclusive a de 587 câmeras, quando ela ficar mais barata. Quem inverte a ordem paga duas vezes: pelo sensor e pelo retrabalho.
