O mercado pet dentro do supermercado mudou de composição em 2026, e a mudança não aparece no total de vendas: aparece na divisão da gôndola. Levantamento da Scanntech feito a partir de cupons fiscais do varejo alimentar mostra que a alimentação para gatos passou de 28,4% para 31% da cesta pet no acumulado do ano, enquanto a ração para cães recuou de 56,2% para 54,1%. São 2,6 pontos de participação trocando de lado em doze meses.
Para quem opera loja, o número isolado é curiosidade. O que vira decisão é o passo seguinte: entender de onde vem esse crescimento. E aí os dados separam duas coisas que o relatório de faturamento costuma misturar — demanda e preço.
O que mudou na cesta pet em 2026
A alimentação continua sendo quase todo o segmento pet no varejo alimentar, mas o dono dela está mudando. Na comparação do acumulado de 2026 com o mesmo período do ano anterior:
- Ração para cão: 56,2% → 54,1% da cesta pet (−2,1 ponto);
- Ração para gato: 28,4% → 31,0% (+2,6 pontos);
- Ração seca de gato já responde por 17,5% de todas as vendas pet;
- Petiscos subiram de 1,8% para 2,2% da cesta, com o maior avanço em unidades entre os itens de alimentação.
O detalhamento por categoria foi divulgado em outubro pelo SuperVarejo e pela Mercado&Consumo, com base na leitura de cupons fiscais.

Participação nas vendas da cesta pet — acumulado 2026 contra o ano anterior. Fonte: Scanntech, a partir de cupons fiscais do varejo alimentar.
Nem tudo que cresce em valor está vendendo mais
Um número de faturamento subindo não diz se a categoria está saudável. O teste é comparar o faturamento com as unidades vendidas: quando os dois crescem juntos, existe demanda nova; quando só o faturamento sobe, o que subiu foi o preço — e preço tem teto.
A cesta pet de 2026 tem os três cenários convivendo na mesma gôndola. Ração seca de gato cresceu 12,4% em faturamento e 14,6% em unidades: o consumidor está levando mais pacote. Petiscos, 26,1% e 23,1%. Vestuário pet, 102,2% e 35,7%. Suplementos, 42,2% e 32,6%. Em todos esses casos a quantidade vendida acompanha (ou supera) o valor.
Já a areia higiênica avançou 7,6% em faturamento com unidades praticamente paradas (+0,1%), e antipulgas e carrapatos, 12,4% de valor com +0,9% de unidades. Aqui o cliente não comprou mais: pagou mais pelo mesmo volume. Tapete higiênico (+5,1% e +2,1%) está no meio do caminho.

Variação do faturamento (cinza) e das unidades vendidas (verde) por categoria, acumulado de 2026. Fonte: Scanntech.
A conta que a planilha de margem não faz
Numa categoria que cresce só por preço, o aumento de custo é repassado e o volume fica parado — bom enquanto o fornecedor segura o repasse, ruim quando o cliente começa a comparar. Numa categoria que cresce em unidades, o ganho vem de giro: mais pacote saindo, mais gente voltando. São dois problemas diferentes de gestão, e o relatório que só mostra valor em reais trata os dois como se fossem o mesmo.
Por que o gato ganhou espaço
A explicação mais usada é demográfica. Segundo a Scanntech, com base no Censo do IBGE, os lares unipessoais e os casais sem filhos ganharam peso entre 2010 e 2022 — em casa menor e com menos moradores, o gato leva vantagem pelo porte e pela independência. É uma leitura coerente com o que aparece no cupom: o crescimento da ração felina vem de quantidade comprada, não de reajuste.
O tamanho do bolo também ajuda a entender por que vale olhar para essa prateleira. A projeção da Abempet para 2026 é de R$ 81 bilhões de faturamento no setor pet, alta de 4,35% sobre os R$ 77,96 bilhões de 2025, com pet food respondendo por 52,8% (cerca de R$ 42,9 bilhões). Parece muito, mas é um setor que desacelerou: o crescimento real de 2025 ficou abaixo da inflação. Ou seja, não é um mercado em explosão — é um mercado em que a fatia muda de mão. E fatia que muda de mão é oportunidade para quem tem o item na gôndola e relatório para enxergar a troca.
Existe ainda uma vantagem estrutural do supermercado: a compra de ração costuma entrar na mesma cesta do mercado do mês. Quem resolve isso na mesma passada não precisa de uma segunda viagem. É o mesmo raciocínio de sortimento que já aparece quando o assunto é formato de loja e disputa por preço, tema do post sobre atacarejo e a régua do varejo em 2026.
O que conferir na sua loja
O dado de mercado não é o dado da sua loja. O caminho é rodar a mesma conta no seu sistema e comparar. Cinco verificações resolvem a maior parte da dúvida:
- Vendas por categoria em unidades, não só em reais. Se o relatório que você usa mostra apenas valor, ele esconde justamente o que interessa.
- Ruptura na seção pet. Crescimento em unidades não acontece se o item falta — e ração de gato é prateleira de poucas marcas, o que faz a falta doer mais. O controle de estoque com giro e ponto de pedido é o que sustenta essa conferência.
- Espaço de gôndola proporcional à participação. Se o gato é 31% da cesta pet, uma seção com quatro faces de cão para uma de gato está vendendo o mercado de dois anos atrás.
- Cadastro em ordem. NCM, embalagem, unidade e código de barras corretos — sem isso, o relatório por categoria erra e a nota fiscal também. Vale revisar antes de mexer no mix, como no auditor fiscal de NF-e.
- Margem por subcategoria. Areia e antipulgas cresceram por preço; acessórios caíram 10,9% em faturamento e 13,6% em unidades, e banho recuou 4,4% e 9,9%. Nem toda prateleira pet merece o mesmo espaço.
Onde o pet encosta no fiscal e no estoque
Racão e itens de higiene animal têm NCM e tratamento tributário próprios, e é comum a loja tratar tudo como "mercado" na hora de cadastrar. O efeito aparece depois: relatório de margem que não fecha, benefício fiscal aplicado na hora errada e conferência de entrada que não casa com a nota do fornecedor. Se a operação é de supermercado com seção pet dentro, o sistema precisa enxergar a seção como seção — com curva, giro e margem separados — sem abrir um segundo cadastro.
É o tipo de controle que já existe no ERP para supermercado por departamento; o trabalho é decidir olhar para o dado.
O que este dado não prova
Três ressalvas honestas. Primeiro, os números vêm de uma base agregada de cupons fiscais do varejo alimentar, não da sua loja: servem de referência de direção, não de meta. Segundo, a participação é da cesta pet, não do faturamento total — 31% de gato não significa 31% da loja. Terceiro, o setor pet como um todo cresce pouco em valor em 2026, e parte do avanço das categorias menores vem de base pequena: vestuário pet dobrar de tamanho é relevante para o mix, mas ainda é uma fatia estreita da gôndola. Vale lembrar também que o consumidor segue pressionado por preço de alimento, como mostram os dados de inflação dos alimentos em outubro — o pet entra no orçamento depois da comida da casa.
Como começar sem trocar nada
Na prática, três passos: puxe a venda da seção pet dos últimos doze meses por subcategoria em valor e em unidades; compare qual das duas colunas explica o crescimento de cada item; e redesenhe a gôndola onde a resposta for "unidades" — porque ali existe demanda esperando espaço. Onde a resposta for "preço", a decisão é outra: negociação de custo e acompanhamento de concorrência, não mais prateleira.
